Hoje o mundo ficou mais cinzento. A cor que lhe davas desvaneceu-se e agora vejo a preto e branco. É só o que verei por uns tempos, a princípio através de uma cortina de lágrimas, depois mais límpido, até que a cor regresse. Mas eu sei que nunca regressará por completo.

Hoje perdi um pouco de mim, uma separação necessária e inevitável, mas eu sei que é apenas temporária. Tenho uma música da banda sonora da novela Alma Gémea na cabeça... "quando eu te vi... o sonho aconteceu... quando eu te vi... meu mundo amanheceu..."
Identifico-te com a música. Lembro-me tão bem daquele dia...
Eu tinha 6 anos, a minha irmã tinha casado e saído de casa e eu passei a ser praticamente filha única. Estava em casa da tia Armanda, em Trás-Os-Montes, a passar férias, e havia uma ninhada de gatinhos. Pedi, pedi muito, e a minha mãe lá disse "Pronto! Levamos um gatinho, mas sou eu que escolho."
E lá foi ela, desapareceu por detrás da casa, e eu toda contente porque ia finalmente ter um gatinho. Passado pouco tempo ela reapareceu. Trazia nos braços uma bolinha de pêlo, e encostava-a à cara, fazendo-lhe festinhas com a face. "Pronto, é este o gatinho que a gente leva.". "Essa é gata", disse a tia Armanda, que saía do barracão onde guardava a ração dos animais.
A bolinha de pêlo eras tu, Lili. E eu lembro-me desse momento como se fosse hoje. Foste a concretização de um sonho de menina, o sonho de ter um gatinho, e quando eu te vi o meu mundo de facto amanheceu.
Hoje, anoiteceu. O Sol estava ainda no horizonte, apenas uma tira avermelhada, já com a primeira estrela no céu, e eu tive de puxar o Sol para baixo. Teve de ser, o Sol sofria, e estava já muito cansado. Cansado do dia, o dia longo de Verão, cansado de brilhar sempre tão forte, tão majestoso, tão bonito, tão luminoso, tão quente. Cansado, pura e simplesmente.
Custou muito abdicar daquela réstia de luz, mas o Amor falou mais alto, e foi feita a coisa certa. Agora há mais uma estrela no céu, e eu preparo-me para uma noite sem Lua, uma noite fria e escura. Uma noite de lembranças e saudades, uma noite de lágrimas e soluços pelo Sol que se foi.
Lili, minha amiga, minha melhor amiga, minha princesa, minha menina, meu Amor. Nunca me vou esquecer de ti, e todos os dias me vou lembrar de não esquecer. Desde aquele primeiro dia em Trás-Os-Montes que só me trouxeste alegrias. Seis mil quatrocentos e vinte e nove dias, 99% deles alegria. Tiveste uma vida feliz, e quem te levou foi o Tempo. A idade avança e não perdoa, e apesar de teres sido sempre muito forte, ela acabou por levar a melhor e roubou-te as forças. Sobreviveste a uma queda de um 3º andar, uma infecção uterina, um tumor mamário e ao início da insuficiência renal, e o que acabou por te levar de mim foi simplesmente a velhice. Ninguém sobrevive a ela, nem mesmo tu, minha querida, que sempre foste uma lutadora e um pilar de força, uma constante na minha vida.
Quase não me lembro da minha existência antes de vires para junto de mim. Tornaste-te minha irmã, no lugar da que me deixou, e eu amei-te sempre em igual grau. Amámo-nos uma à outra, eu sei que sim. Eras um peluche autêntico, era um prazer dormir contigo. Tão fofinha, tão calminha, sempre a ronronar bem alto. Sempre deste muitas turrinhas, e foste a primeira gata que eu ensinei a dar beijinhos. E tu davas, sabias tão bem o que era "beijinho". Sempre que eu pedia, viravas a carinha para mim e lambias-me.
Meu amor, custou muito deixar-te partir, mas sei que estarás sempre comigo, e sei que voltarei a ver-te. Acredito e agarro-me a isso como se de uma bóia no oceano se tratasse, porque só assim é que consigo levar a vida.
Vou cumprir o que te prometi, vais ver que sim. Vais ficar orgulhosa de mim. Fica em paz, meu anjinho. Fica em paz e fica sempre aqui pertinho de nós.
Amo-te para sempre.
