A falar é que nos entendemos

terça-feira, 17 de março de 2009
Hoje em dia, dominar uma segunda língua é quase tão importante como dominar a língua materna. Isto, penso eu, é um facto adquirido.

Primeiro ponto:

Antes de querer aprender uma segunda língua, há que dominar a primeira! Meus amigos, eu já não sei como ainda fico admirada com a quantidade de pontapés na gramática que oiço e leio todos os dias. Os mais comuns são, por exemplo, o "devias de", o acrescento do "s" na conjugação de verbos no pretérito perfeito da segunda pessoa ("tu ouvistes", "tu fizestes", ...) quando estes estariam correctos na 5ª pessoa ("vós ouvistes", "vós fizestes", ...), "há-des" em vez de "hás-de", entre outros que são próprios de imigrantes cá em Portugal e que não sei se podem ser ouvidos noutro sítio que não seja aqui, na zona onde moro, erros esses que ainda são mais ultrajantes que os anteriores ("eu vi-lhe" em vez de "eu vi-o", "à minha trás" em vez de "atrás de mim", etc).

Além destes que podem ser detectados oralmente, existem outros, escritos, que demonstram o quão pouco instruídas as pessoas são, no que diz respeito à nossa língua. Exemplos desses erros são o não saber distinguir quando se escreve "há", "á" ou "à", o não saber como colocar o hífen (o "tracinho") nos verbos quando a estes estão adjacentes os pronomes pessoais átonos ("me", "lhe", "te", ...). Já vi verbos escritos no pretérito perfeito (o "passado") com hífen onde este não devia existir. Por exemplo "acabas-te" em vez de "acabaste". O primeiro está no presente e o "-te" é um pronome pessoal átono, lê-se "acÁbas-te" e sugere "alguém que se acaba a si próprio". Como é que escreveriam o pretérito perfeito do verbo mantendo este erro? Teria de ser com dois hífens. "Acabas-te-te". Ora, meus senhores, tal coisa não se faz. O segundo está no pretérito perfeito, lê-se "acabÁste" e sugere que alguém acabou alguma coisa, mais concretamente, "tu acabaste alguma coisa".

Erros destes e de outros tipos são o que hoje em dia se vê bastante por aí, e não devia. Eu culpo as escolas, porque não existe um grau de exigência suficientemente elevado. Um aluno mal sabe escrever duas frases seguidas sem dar um erro e mesmo assim é passado a Língua Portuguesa. Deviam ser mais exigentes, deviam chumbar quem dá erros destes quando devia estar a um nível muito superior. Na primária, tudo bem que seja admissível, os miúdos ainda estão a aprender, mas daí para a frente acho um disparate fechar os olhos a coisas assim. Outra coisa que não se faz o suficiente em Portugal é a promoção do gosto pela leitura. Querem pôr os alunos a ler livros clássicos na escola e não há estímulos, quer na escola, quer em casa, quer em qualquer outro sítio que a maioria dos miúdos frequente, que promovam a leitura por auto-recriação. Em vez de ler, os miúdos e os graúdos passam cada vez mais tempo em frente à televisão ou à consola de jogos, e os programas que vêem, frequentemente, não são minimamente educativos. Não fazem nada que lhes puxe pela cabeça, e por isso são cada vez piores na escola. Até parece que, cada vez mais, ter más notas e não se importar com isso é símbolo de estatuto nas escolas. "Ena, aquele gajo é um g'anda baldas, 'tá-se a c*gar p'rá escola. É 'memo' fixe!". Esta atitude está a transformar as escolas em "fábricas de vândalos", porque jovens assim não encontram futuros promissores e, por isso, muitas vezes decidem que a única alternativa é virarem-se para o crime.

Até há bem pouco tempo, eu própria também não nutria um gosto pela leitura, via (e ainda vejo) muita televisão, passo muitas horas ao computador e de vez em quando sirvo-me da minha PS2, mas a diferença, acho, é que eu interesso-me por variadíssimos temas e uso a televisão e a internet como fontes principais para me instruir sobre eles. Vejo imensos documentários sobre Astronomia, Medicina, Ciência e Tecnologia, Arqueologia, Geologia, entre outros. Sempre tive diversas áreas de interesse e acho que isso é que me salvou de me tornar um mero espelho dos reality shows e dos videoclips da actualidade.

Nunca tive paciência para a leitura, e tudo o que lia era sempre por causa da escola. Obrigaram-me a ler Os Maias (acho que só li até ao capítulo 9... coisa mais enfadonha!!) e A Aparição, assim como os livros de História até ao 9º ano (até dei pulos de alegria quando me livrei daquela maldita disciplina). Quando tinha de estudar História, a minha maior dificuldade era mesmo manter-me acordada a seguir aos primeiros parágrafos que lia. Entendo que para poder entender o presente e antecipar o futuro há que compreender o passado, mas bolas, podiam dar alguma História que não fosse datas e reis, algo com mais interesse, ou então dar a disciplina de maneira diferente, mais estimulante, porque aquilo para mim era um martírio.

Mas um dia decidi que queria ler. Algures no ensino básico tinham-me mandado ler um excerto do livro Odisseia, de Homero. Li o que dizia respeito à história de Ulisses, de maneira resumida. E o que é certo é que li, reli e voltei a reler por mais de uma vez, porque me agradava. Por isso quis comprar um livro com uma história que eu achasse que iria gostar. E foi assim que comprei o meu primeiro livro de fantasia/ficção, e devorei-o. Não me vou pôr aqui a recomendar livros (pelo menos por enquanto... tenciono postar alguns comentários acerca do que tenho lido), mas o que é certo é que comecei a gostar tanto de ler que às vezes até dou por mim, com um livro aberto, a admirar a beleza das letras e da forma como se unem umas às outras! Afinal eu tinha gosto pela leitura, só precisava de o descobrir. A partir daí não tenho parado de ler, e já me passaram pelos olhos muitos milhares de páginas.

Esta conversa toda foi para dizer que, para promover o gosto pela leitura e assim fazer com que os jovens dominem melhor a nossa língua, não se pode esperar que eles leiam com gosto os livros que são obrigatórios no ensino actual. Escolham autores actuais, portugueses, e seleccionem um livro de diferentes temas (um romance, um policial, etc). E nos testes fazem-se perguntas sobre todos os livros opcionais, mas o aluno só responde às perguntas relativas ao livro que leu. Assim promovia-se o gosto pela leitura, os jovens saíam da escola com bons hábitos de escrita e um maior domínio da língua portuguesa e todos ficavam felizes!

Segundo ponto:

A grande maioria das pessoas escolhe o inglês como segunda língua, aquela em que mais investe, a seguir à língua materna.

O que eu acho que está errado no ensino do inglês é a facilidade com que se passam os alunos e a negligência que existe quanto à correcta pronúncia das palavras. No ensino básico, tive só inglês do 5º ao 9º, e a partir do 5º poucas foram as coisas novas que aprendi, porque a grande maioria dos meus colegas não sabia, nem se ralava, com o que tinha aprendido ao nível mais básico. Daí que, em todos os anos lectivos, se estivesse sempre a repetir a mesma coisa. Era como se, do 5º ao 9º ano, os alunos nunca tivessem visto inglês à frente. Uma coisa impressionante.

Como não podia esperar que me ensinassem algo novo nas aulas, e como sempre adorei inglês, fui aprendendo sozinha, quer à custa da televisão, quer à custa de jogos, quer à custa de música. E penso que a minha aprendizagem foi bem mais completa do que a que se dá nas escolas, porque eu dei-me ao trabalho de prestar atenção a tudo. Às palavras que se diziam (se não as conhecia ia ver ao dicionário, contribuindo assim para alargar o meu vocabulário), à maneira como se conjugavam e, muitíssimo importante, à forma como se pronunciava cada palavra.

Meus amigos, não me venham com histórias, o que é certo é que a pronúncia é tão importante como o vocabulário, porque nós, no dia a dia, comunicamos, principalmente, falando. Sempre comunicámos através de sons, sons esses que se converteram em linguagens muito antes de existirem formas de escrita! E se ainda não se convenceram de que a pronúncia é tão ou mais importante que o vocabulário, digam-me porque é que os jornalistas se incomodam a pôr legendas quando se fazem entrevistas a pessoas naturais dos Açores ou da Madeira. Afinal de contas, aquelas pessoas estão a falar português. Para quê usar legendas? Porque, como a pronúncia é tão diferente, nós, cá em Portugal Continental, temos uma grande dificuldade em compreendê-la.

Então, para quê aprender inglês sem ligar à pronúncia, se quando o formos a pôr em prática ninguém entender o que dizemos?

A pronúncia é muitíssimo importante e, infelizmente, é menosprezada, e por isso é que eu chego ao limite dos nervos todos os dias, quando estou nas aulas, no ISEL, e não há um único engenheiro que consiga empregar os termos técnicos da disciplina que lecciona sem tropeçar no inglês. Eu já ouvi "dévlópment" em vez de "development" (lê-se "devélopment"), "garbeige" em vez de "garbage" (lê-se "gárbage"), "manégement" em vez de "management" (lê-se "ménagement"), "paramiter" em vez de "parameter" (lê-se "parémeter"), entre muitos outros que me fazem querer saltar da cadeira e desatar ao estalo ao engenheiro que estiver a mandar aquelas bacoradas. Controlo-me, claro está, mas acreditem que fico com os nervos em franja.

As aulas de inglês deviam dar mais ênfase à componente oral, deviam fazer testes mais sérios para a avaliação dos alunos no que diz respeito à pronúncia em vez de se concentrarem apenas no vocabulário e na gramática. Afinal de contas, o inglês cada vez é mais necessário, por ser uma língua altamente globalizada, e se, nos requisitos para um posto de trabalho, pedem que a pessoa que se candidata à vaga saiba inglês, é porque, certamente, será preciso falar inglês com pessoas que não entenderiam português. De que serviria saber de cor um dicionário inteiro de inglês, se a pessoa com quem estamos a falar não entende patavina do que dizemos, porque temos uma pronúncia negligente?

Peço desculpa pelo post longo, mas esta era uma frustração antiga que queria sair há muito tempo, e também já lá vão alguns dias desde o meu último post. Tenho pena, porque sei que este post não deve chegar aos ecrãs de muita gente, e penso que o ensino português beneficiaria das sugestões aqui presentes.